terça-feira, junho 28, 2005

A vida...a constante dúvida...a constante "Interrogação"...

Interrogação

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.

Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor.
Será talvez começo...

Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é,
mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

Camilo Pessanha

segunda-feira, junho 27, 2005

A propósito da Inteligência Emocional

"Por razões de moda, pelo seu valor apelativo, mas também pela sua valia heurística, a inteligência emocional (IE) granjeou atenções de múltiplos sectores da vida social, política, económica e empresarial.
Enunciando de um modo simples, os indivíduos emocionalmente inteligentes são os que usam a razão para compreender as emoções (as próprias e as dos outros) e lidar com elas, e que recorrem às emoções para interpretar a envolvente e tomar decisões mais racionais. A IE representa, pois, a capacidade para conciliar emoções e razão: usar as emoções para facilitar a razão, e raciocinar inteligentemente acerca das emoções. Refere-se ao conjunto de capacidades que fazem com que a pessoa actue de uma forma adulta e auto-controlada, evitando incorrer em comportamentos regressivos e emocionalmente imaturos.
Inclui características como:
(a) a capacidade de avaliação correcta dos estados de espírito próprios e alheios; (b) a regulação adaptativa das emoções próprias e alheias;
(c) o uso inteligente das emoções nas diferentes actividades da organização (e.g. liderança, negociação, trabalho em equipa, resolução de problemas).

Um modo expedito de compreender a IE consiste em prestar atenção às competências que lhe subjazem. Uma classificação simples distingue quatro facetas:
(a) empatia, capacidade de avaliar as emoções próprias e dos outros, e de exprimir rigorosamente as próprias;
(b) uso das emoções para melhorar os processos cognitivos e a tomada de decisão (e.g., recorrer a estados de espírito positivos para trabalhos de criatividade);
(c) conhecimento acerca das causas e das consequências das emoções;
(d) capacidade para gerir as emoções próprias e de outros (e.g., preservação de estados de espírito positivos e reparação dos negativos).
Frise-se que estes quatro aspectos estão intimamente relacionados. Por exemplo, a tomada de consciência das emoções é necessária para que o indivíduo possa geri-las; a empatia representa um elemento facilitador da gestão das emoções dos outros.
A teoria da IE assume que as pessoas podem, de uma forma consciente, lidar com as suas emoções e as das outras pessoas, e geri-las de um modo funcional, quer em termos pessoais quer organizacionais. Entre outros indicações, os dados também sugerem que as pessoas com níveis mais elevados de IE denotam níveis superiores de desempenho e sucesso profissional.
Líderes com elevados níveis de IE criam climas onde imperam a partilha, a confiança, níveis saudáveis de tomada de risco, aprendizagem proveitosa. Ao contrário, baixos níveis de IE produzem medo, ansiedade, inibição de arriscar, resistência à partilha de conhecimentos e experiência. Quando um líder está sob estados de espírito positivos, as pessoas em seu redor tendem a encarar a envolvente de um modo também positivo – assim se tornando mais optimistas acerca do alcance dos objectivos, mais criativas, mais eficientes na tomada de decisão, mais predispostas para ajudar os restantes membros organizacionais. Ocorre, por conseguinte, uma espécie de liderança galvanizante ou ressonante: os estados de espírito dos líderes repercutem-se nos seus colaboradores e no desempenho do grupo ou organização.

AIE transmite-se ao longo de uma organização “tal como a electricidade através dos fios eléctricos”. Uma indagação de grande relevância nesta matéria é a de se saber por que tais efeitos ocorrem. O contágio emocional parece servir como potencial fonte explicativa: as pessoas têm a tendência inconsciente para convergir emocionalmente quando interagem, isto é, para mimetizarem e sincronizarem expressões faciais, vocalizações, posturas e movimentos de outras pessoas.

Sucede que os resultados de vários estudos sugerem uma explicação alternativa potente: existe uma “regulação límbica interpessoal”, de tal modo que “uma pessoa transmite sinais que podem alterar os níveis hormonais, as funções cardiovasculares, os ritmos de sono e mesmo as funções imunitárias no corpo de outra pessoa. É por isso que cada membro de um casal é capaz de estimular o surgimento de oxitocina nos cérebro do parceiro, assim criando um sentimento prazenteiro e afectuoso”.

Em síntese: pese embora a escassez de pesquisas empíricas relacionando IE e eficácia de liderança, os dados disponíveis permitem supor que “no mínimo, as emoções e a inteligência emocional merecem ser consideradas no domínio da liderança” . E há razões para pensar que a liderança transformacional, visionária e baseada em valores deve uma parcela da sua existência e efeitos às “qualidades” emocionais dos líderes.

De tudo o que pode ser dito relativamente a este assunto, poderemos considerar 5 linhas de síntese:
Primeira: contrariamente ao paradigma tradicional, as emoções podem tornar o pensamento mais inteligente, e a inteligência pode permitir pensar e usar de modo mais apurado as emoções. É esta possibilidade cruzada que define a IE.
Segunda: a IE parece representar a pedra angular para melhores desempenhos - incluindo a eficácia dos líderes.
Terceira: a relevância da IE na eficácia dos líderes aumenta à medida que se sobe na hierarquia.
Quarta: é importante que um líder tenha competências emocionais diversificadas, combinando-as em diferentes configurações consoante as situações que se lhe deparam. No caso de não deter determinadas competências, deve rodear-se das pessoas que as possuam.
Quinta: apesar de haver uma componente genética na IE, os líderes também podem adquirir certas competências emocionais através da experiência e da formação. Por exemplo, podem aprender a ser mais proficientes na comunicação interpessoal - incluindo a competência em “saber ouvir”.

Baseado no artido "Liderança emocional electrizante" de Miguel Pina e Cunha (Faculdade de Economia, UNL) e Arménio Rego (Universidade de Aveiro)

Deixa-te ficar na minha casa....

«Tenho livros e papéis,
espalhados pelo chão.
A poeira de uma vida
deve ter algum sentido!
Uma pista, um sinal
de qualquer recordação,
uma frase onde te encontro
e me deixa comovido...

Guardo na palma da mão
o calor dos objectos,
com as datas e locais,
porque brincas porque ris...
E depois o arrepio,
a memória dos afectos...
Que me deixa mais feliz!

Deixa-te ficar na minha casa,
há janelas que tu não abriste...
O luar espera por ti,
quando for a maré vaza...
Ainda tens de me dizer
porque é que nunca partiste...

Está na mesma esse jardim,
com vista sobre a cidade,
onde fazia de conta
que escapava do presente...
Qualquer coisa que ficou,
que é da nossa eternidade...
Afinal, de eternamente...

Deixa-te ficar na minha casa,
há janelas que tu não abriste...
Deixa-te ficar na minha casa,
há janelas que tu não abriste...
O luar espera por ti,
quando for a maré vaza...
Ainda tens que me dizer
porque é que nunca partiste...»

["Deixa-te ficar na minha casa" - Filarmónica Gil]

Projecto novo chamado Filarmónica Gil (João Gil, João Monge, Rui Costa, Nuno Norte)...Isto promete...*

quarta-feira, junho 22, 2005

Mário de Sá Carneiro...."Quase"

"Sá-Carneiro não teve biografia: teve só génio. O que disse foi o que viveu."
Fernando Pessoa


Definição de Mário de Sá-Carneiro com uma só palavra: Superação.
Uma curta existência, com obsessões e conflitos profundos, porém vibrante e inesquecível, porque plena.
Uma entrega absoluta, sem meios termos e sem medir conseqüências, na superação da vida pela arte literária.

Deixo-vos com um dos seus poemas...percam-se...ou "Quase"...
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Paris, 13-5-1913


The “One”, U2...

Is it getting better
Or do you feel the same
Will it make it easier on you
Now you got someone to blame

You say
One love
One life
When it’s one need
In the night
It’s one love
We get to share it
It leaves you baby
If you don’t care for it

Did I disappoint you?
Or leave a bad taste in your mouth?
You act like you never had love
And you want me to go without

Well it’s too late
Tonight
To drag tha past out
Into the light
We’re one
But we’re not the same
We get to carry each other
Carry each other
One

Have you come here for forgiveness
Have you come tor raise the dead
Havew you come here to play jesus
To the lepers in your head
Did I ask too much
More than a lot
You gave me nothing
Now it’s all I got
We’re one
But we’re not the same
We hurt each other
Then we do it again

You say
Love is a temple
Love a higher law
Love is a temple
Love the higher law
You ask me to enter
But then you make me crawl
And I can’t be holding on
To what you got
When all you got is hurt

One love
One blood
One life
You got to do what you should

One life
With each other
Sisters
Brothers

One life
But we’re not the same
We get to carry each other
Carry each other

One

One.

“Five Minutes Of Everything”, The Gift

Give me please five minutes of everything
Those days when you wake up
And there's no one by your side
My arm slides slowly to my left side
And to my right side, there's no one there
To kiss you or to hear you
And you go out of bed
Thinking in those days that you need
You used to talk and talk about
And everything that stops your attention
You used to talk, talk about
Everything
Those days when you walk at the bar
And try to keep a conversation with somebody else
And no one out there you could sit down or walk
There's no one there.
Five minutes of love
Five minutes of hate
Five minutes I try to call your name
Five minutes of passion
And no one knows the right place to go
No meaning or just self-control maybe
And you walk out of there
You need to talk with somebody else
And to know the problems are waiting for
Outside the door
Are waiting for
The clock won't stop
And even if it stops
Five minutes of love
Five minutes of hate
Five minutes I try to call your name
Of passion
Five minutes of everything
Of everything
Maybe you want to talk about old questions
Right next to my ear
But I don't care about those silly things
Cause all I need is five minutes of everything

“Adriana”, Jorge Cruz

mais um dia na cidade
e ainda não sei nada de ti
ainda não vi o teu milagre
sobre mim
eu nem ouso sentir esperança
estou tão longe do que é bom
não te tenho nesta dança
neste tom
mas se te vejo, adriana
se te vejo, adriana
eu quero ir, eu quero ir, eu quero ir, eu quero ir
atrás de ti
eu quero ver-te no meu espelho
intimidar-te com o olhar
e confessar-te que foste eleita
para eu me dar
vá vem dormir para os meus braços
que eu vou mostrar-te o que é o amor
se eu não vencer
quem vence a prova do teu rigor
e se te vejo, adriana
se te vejo, adriana
eu quero ir, eu quero ir, eu quero ir, eu quero ir
atrás de ti
mais um dia na cidade
e ainda não sei nada de ti
mas é tão bom ter o teu nome aqui
aqui, aqui, aqui
eu estou aqui.

terça-feira, junho 21, 2005

Linger, The Cranberries>

If you, if you could return
Don't let it burn,don't let it fade
I'm sure I'm not being rude
But it's just your attitude
It's tearing me apart
It's ruining everything
I swore, I swore I would be true
And honey so did you
So why were you holding her hand
Is that the way we stand
Were you lying all the time
Was it just a game to you
But I'm in so deep
You know I'm such a fool for you
You've got me wrapped around your finger
Do you have to let it linger
Do you have to, do you have to, do you have to let it linger
Oh, I thought the world of you
I thought nothing could go wrong
But I was wrong, I was wrong
If you, if you could get by
Trying not to lie
Things wouldn't be so confused
And I wouldn't feel so used
But you always really knew
I just wanna be with you
But I'm in so deep
You know I'm such a fool for you
You've got me wrapped around your finger
Do you have to let it linger
Do you have to, do you have to, do you have to let it linger
But I'm in so deep
You know I'm such a fool for you
You've got me wrapped around your finger
Do you have to let it linger
Do you have to, do you have to, do you have to let it linger
You know I'm such a fool for you
You've got me wrapped around your finger
Do you have to let it linger
Do you have to, do you have to, do you have to let it linger

Creep, Radiohead....A música das músicas...a Letra das letras...

When you were here before
Couldn't look you in the eye
You're just like an angel
Your skin makes me cry
You float like a feather
In a beautiful world
I wish I was special
You're so fucking special
But I 'm a creep
I 'm a weirdo
What the hell am I doing here?
I don't belong here

I don't care if it hurts
I want to have control
I want a perfect body
I want a perfect soul
I want you to notice
When I'm not around
You're so fucking special
I wish I was special

But I'm a creep
I'm a weirdo
What the hell am I doing here?
I don't belong here

She's running out again
She's running out
She run, run, run run
Run

Whatever makes you happy
Whatever you want
You're so fucking special
I wish I was special
But I'm a creep
I'm a weirdo
What the hell am I doing here?
I don't belong here
I don't belong here

Fico Assim Sem Você. .

Avião sem asa, fogueira sem brasa
Sou eu assim sem você
Futebol sem bola. Piu-Piu sem Frajola
Sou eu assim sem você

Por que é que tem que ser assim?
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil alto-falantes
Vão poder falar por mim

Amor sem beijinho,
Buchecha sem Claudinho
Sou eu assim sem você
Circo sem palhaço, namoro sem amasso
Sou eu assim sem você
To louca pra te ver chegar
To louca pra te ter nas mãos
Deitar no teu abraço, retomar o pedaço
Que falta no meu coração

Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo Porque? Pooooooorque?

Neném sem chupeta, Romeu sem Julieta
Sou eu assim sem você
Carro sem estrada, queijo sem goiabada
Sou eu assim sem você

Por que é que tem que ser assim?
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil alto-falantes
Vão poder falar por mim

Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo

Adriana Calcanhoto

segunda-feira, junho 20, 2005

Dia Mundial do Refugiado

Nomeado Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), António Guterres, terá hoje a sua primeira acção no estrangeiro, por ocasião do Dia Mundial do Refugiado. A sua primeira visita oficial será ao Uganda, onde contactará com refugiados e deslocados que estão naquele país. Durante a visita à região, António Guterres pernoitará num campo de refugiados congoleses no Uganda, para se inteirar da situação em que vivem e para se solidarizar com os funcionários do ACNUR no local.
E o que significa ser um refugiado? É muito mais do que ser apenas um estrangeiro. Significa viver no exílio e depender com frequência dos outros para satisfazer as necessidades básicas de alimento, vestuário e abrigo. As mulheres, as crianças e os idosos são os refugiados mais vulneráveis, o que é óbvio mas que nunca é demais sublinhar.
O refugiado é antes de mais nada uma vítima, que perdeu talvez tudo na vida menos a esperança. São sobreviventes e por isso dignos de todo o nosso respeito...
Todos os dias, num ponto qualquer do planeta, há pessoas que se tornam refugiados. Na última década, vários conflitos se agravaram e em muitas partes do mundo, os civis continuam a ser obrigados a fugir, sobretudo por causa de guerras internas, as guerras civis.
Como se viu em lugares tão diferentes como o Kosovo, Timor Leste, Serra Leoa e a região dos Grandes Lagos em África, as causas que estão na origem dos conflitos e da deslocação residem muitas vezes na incapacidade de reconhecer devidamente as aspirações e os direitos de minorias étnicas ou de vários grupos sociais.
Cerca de 14 milhões de pessoas são refugiados no sentido convencional da palavra: pessoas que deixaram o seu próprio país para fugir da perseguição, de um conflito armado ou da violência. A este número deve-se somar o grande número de pessoas deslocadas que não recebem qualquer tipo de protecção ou assistência internacional, a maioria das quais permanece dentro das fronteiras do seu próprio país.
Quase dois terços dos refugiados do mundo se encontram no Médio Oriente e em África. Metade do total de refugiados são palestinos e pessoas procedentes do Afeganistão e do Iraque. Também são grandes fontes de refugiados a Serra Leoa, a Somália, o Sudão, a Jugoslávia, Angola, a Croácia e a Eritréia.
Eis as principais situações de refugiados no Mundo:
Guerra na ex-Jugoslávia
Cerca de 3.7 milhões de pessoas deslocadas ou afectadas pela guerra recebem assistência humanitária das Nações Unidas, dos quais 2.7 milhões apenas na Bósnia-Herzegovina
Asilo na Europa
Desde o início dos anos 80, cerca de cinco milhões de pedidos de estatuto de refugiado foram apresentados na Europa Ocidental.
Guerra na ex-Jugoslávia
Cerca de 3.7 milhões de pessoas deslocadas ou afectadas pela guerra recebem assistência humanitária das Nações Unidas, dos quais 2.7 milhões apenas na Bósnia-Herzegovina.
A questão palestiniana
Perto de 2.8 milhões de pessoas registaram-se junto da UNRWA, a agência responsável pelos refugiados palestinianos. O seu futuro continua a ser uma das questões mais complexas no processo de paz do Médio Oriente.
Repatriamento para a Guatemala
Cerca de 20.000 guatemaltecos regressaram ao seu país ao longo dos últimos 10 anos. Espera-se que regressem em 1995 com a assistência do ACNUR mais de um quarto dos 45.000 que ainda se encontram no México.
Reintegração em Moçambique
Mais de 1.6 milhões de refugiados regressaram a Moçambique provenientes dos seis países vizinhos entre os finais de 1992 e o início de 1995. Têm agora de começar a fazer face às suas necessidades e a reintegrarem-se no seio das suas comunidades.
Conflitos no Cáucaso
Nos últimos anos presenciou-se uma sucessão de deslocações da população no interior da Arménia, Geórgia e Federação Russa, bem como entre estes países, que envolveu cerca de 1.5 milhões de pessoas. Muitas delas não podem ou não querem regressar ao seu anterior local de residência.
Situação de emergência em Ruanda/Burundi
Mais de um milhão de ruandeses afluiram ao Zaire em meados de 1994, um movimento de refugiados dos maiores e mais rápidos alguma vez visto. O ACNUR está agora a dar protecção e assistência a cerca de 2.2 milhões de pessoas deslocadas no Burundi, Uganda, Ruanda, Tanzânia e Zaire.

E está é uma entre muitas realidades que podemos assistir (se estivermos atentos...) no nosso planeta Azul....

Baseado no documento da ACNUR (Genebra , 1995)



quinta-feira, junho 16, 2005

Poema da flor proibida...(António Gedeão)

Poema da flor proibida

Por detrás de cada flor
há um homem de chapéu de coco e sobrolho carregado.
Podia estar à frente ou estar ao lado,
mas não, está colocado
exactamente por detrás da flor.
Também não está escondido nem dissimulado,
está dignamente especado
por detrás da flor.
Abro as narinas para respirar
o perfume da flor,
não de repente
(é claro) mas devagar,
a pouco e pouco,
com os olhos postos no chapéu de coco.
Ele ama-me. Defende-me com os seus carinhos,
protege-me com o seu amor.
Ele sabe que a flor pode ter espinhos,
ou tem mesmo,
ou já teve,
ou pode vir a ter,
e fica triste se me vê sofrer.
Transmito um pensamento à flor
sem mover a cabeça e sem a olhar
De repente,
como um cão cínico arreganho o dente
e engulo-a sem mastigar.

António Gedeão
Obra Poética
Edições João Sá da Costa
2001

O Sol nas noites e o luar nos dias...(Natália Correia)

O sol nas noites e o luar nos dias

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia
Poesia Completa
Publicações Dom Quixote
1999

A propósito de solidão...

Poema do Homem Só

Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem

Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nehum ser nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarçe,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém.

António Gedeão

quarta-feira, junho 15, 2005

Engénio de Andrade....(1925-2005)

Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
ao fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...
Mas tu esqueceste muita coisa!

Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...


Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esquecerei de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

Boa noite. Eu vou com as aves!

Eugénio de Andrade, Antologia Poética

segunda-feira, junho 13, 2005

O Casamento

No sábado, dia 11 de Junho de 2005, realizou-se o casamento do Severino e da Patrícia! E foi um casamento lindo...:) Daqueles "Hollywoodescos", com cerimónia no jardim, cadeiras forradas a branco, carpete vermelho a conduzir a noiva ao noivo...E a noiva ia linda!!:) O Severino lá ia repetindo "Eu estou calmo! Eu estou calmo!"....e a maneira como ele ficou quando viu a Patrícia..ai ai!;)
E esta foi a parte séria do casamento....daí para a frente foi o descalabro total!;)
A malta toda reunida, cheia de fome e de "sede" e com vontade fazer deste casamento uma data memorável para qualquer um dos presentes!:)
Passaram a ouvir-se coisas como "Queremos Rixóis! Queremos Rixóis", "Queremos linguiça!Queremos linguiça!", "Rexeita!!Rexeita!!", "Tá tudo em cima?", "A senhora deveria ter orgulho nos amigos do seu filho!", "Já reparaste no que está dentro das orelhas do XXXX?", "Estou a ressacar café!!! Café...café...café!!"...
E as coisas lá foram aquecendo à medida que a tarde caía....e o vinho fermentava!;)
É claro que houve sempre quem se destacasse no meio dos convidados....desde a rapariga "dos seus 12, 16 anos", com o seu vestido laranja e com os "generosos seios"....ao rapaz de fato branco (2 números acima), camisa preta e cruz de ouro ao peito...digamos que todas estas características podem ser justificadas pelo facto de não viverem em Portugal....mas esta é apenas uma hipótese!;)
E como em qualquer casamento, também neste não faltou o fotógrafo, papel tão bem desempenhado pelo PR, que lá conseguiu tirar em tempo recorde 150 fotos!
E para ajudar à festa nada como umas boas cantorias, em torno da mesa, já com a luz das velas a criar "aquele" ambiente... E aí brilhamos todos...Destaco a voz cheia de "paixão" e "força" da Isabelita a cantar o grande hino de Macinhata..;) Que mais uma vez relembrou que "não devemos esquecer a capital importância das marchas populares!"
No final da noite, nada melhor do que o típico bailarico, com noivo e noiva, pais da noiva e amigos dos noivos!;)
E foi bonito de ver...e de ouvir! Aquelas vozes afinadas, acompanhadas ao piano pelo magnífico Fon-Fon!!
E há quem diga (uma vez que já não pude assistir, pelo tardio da hora, aliado a outras questões que me ultrapassam...) que o melhor ainda estava para vir, com o desfile de moda patrocinado pela "Artemoda"!;)
Resumindo, aquela festa teve tanto de irreal como de divertida...!Mas destaco o espírito, a alegria e a camaradagem de todos os presentes!
Ficamos a aguardar o próximo evento que nos reúna a todos, porque será sem dúvida nenhuma mais um momento alto!:)
Felicidades aos noivos...que devem estar neste momento a caminho do México!!! Sem dúvida, uma óptima maneira de começar uma vida a dois!:)

quarta-feira, junho 08, 2005

A propósito de..."Um Ensaio sobre a Cegueira" de José Saramago

Tem considerado o Ensaio sobre a Cegueira como um livro duro. Porquê?
José Saramago- Trata-se de uma situação em que toda a gente cega e, a partir daí, ninguém sabe conviver, onde ir ou o que fazer, porque o mundo está organizado para quem vê. Então, sobem ao de cima os instintos maus, a necessidade de sobreviver contra os outros. Até agora, quem leu o livro está de acordo: é um livro duro.

O que o levou a escrever um livro assim?
J.S.- Não é fácil dizer porque se escreve um livro, embora este tenha uma resposta simples: o mundo (parece-me que estamos de acordo) não está bem, é terrível. Vamo-nos habituando às coisas más, dolorosas, alucinantes. E perdemos a sensibilidade, a capacidade de reagir às coisas más, de combatê-las. Este livro é, de uma maneira transposta, a metáfora do medo real. Tinha que ser duro, porque o mundo é duro e violento. Foi a consciência desta sociedade que é a nossa que me levou a escrever este livro.

É um grito de alerta?
J.S.- Não é um grito de alerta, porque os outros não dão por eles. É mais como quem cumpre um dever, uma obrigação. Se penso que as coisas estão assim, tenho que dizê-lo... Como se dissesse: como vamos? vamos mal. Não posso mudar o mundo, por isso a minha contribuição é escrever um livro onde o denuncie. E o leitor irá decidir até que ponto isso lhe interessa."

ANDRADE, Elsa, "Ensaio sobre a Cegueira ou o sofrimento de Saramago" in jornal O Bancário, s/l, 6 de Novembro 1995, pág.10.

"300 e tal páginas de aflição...
Porquê tanto sofrimento? Será que adivinha o escritor tão más perspectiva?
As esperanças que podemos pôr no futuro dependem da nossa capacidade de mudar o presente. Não haverá amanhãs que cantem se hoje são tantos os motivos que temos para chorar e tão poucos os que restam para sorrir. Se, como dizia Leibnitz, vivemos em cada momento no melhor dos mundos possíveis, então é o mundo que não tem remédio."

"O Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago é de arrasar e, antes disso, de abalar as nossas certezas. Depois da leitura do Evangelho Segundo Jesus Cristo, nenhum outro livro de Saramago terá incomodado tanto o leitor.
Neste romance temos tudo o que caracteriza a sociedade actual (mas sempre foi assim...): o sectarismo (isolamento dos cegos num manicómio), a violência gratuita (os disparos dos soldados sobre os cegos), o cinismo dos políticos (medidas tomadas para tentar debelar a epidemia de cegueira), o egoísmo (cada cego por si), os grupos armados que não são mais do que a caricatura dos bandos criminosos, a porcaria que inundava a cidade, etc., etc.
Podem identificar-se algumas referências mais ou menos históricas, mais ou menos literárias: os campos de concentração nazis, A Peste de Albert Camus, a cidade moderna perante uma catástrofe, as estranhas figuras de Bosh e de Dürer, a visão bíblica dos cegos que conduzem outros cegos. Mas algo que me parece essencial: a cidade de Tróia sendo destruída pelos exércitos gregos. Eneias, diante de todo o desastre, carrega às costas seu pai cego. A mulher do médico não será porventura um Eneias, único guerreiro que, perante a catástrofe, não perdeu o sangue frio? E temos o velho da venda preta. Não é concerteza Anquises. Mas não haverá porventura nele algo de Homero? Quem é que conta aos cegos do manicómio aquilo que se passou lá fora depois de terem sido internados? Quem é que lhes relata, ouvidas as notícias na rádio, o que se vai passando?
Este cego da venda preta tem algo de narrador e algo de épico. Ele próprio aparece como cronista em potência das venturas e desventuras do manicómio (cfr. págs. 159-161). E depois, claro, facilmente se poderá identificar com o alterego do autor. A rapariga dos óculos é a ele que elege (cfr. págs. 170 e p. 291), «ficando por esta via demonstrado, mais uma vez, que as aparências são enganadoras, e que não é pelo aspecto da cara e pela presteza do corpo que se conhece a força do coração».
É interessante o escritor cego que aparece em casa do primeiro cego e mais interessante ainda a técnica que ele inventou para poder escrever. Disto se tira a lição: não há desculpa para ficar calado. E a propósito me vem a história de Brás Garcia Mascarenhas, soldado e poeta do tempo da Restauração que, sendo acusado de traição contra o rei, foi preso. Tiraram-lhe tudo, excepto uma bíblia. Rasgando as letras uma a uma, compôs um poema que colou com farinha e água numa das páginas rasgadas. O poema conseguiu, por linhas travessas, chegar ao rei, que, vendo a injustiça, ordenou a sua libertação.
A mulher do médico encarna muitas heroínas: a Blimunda do Memorial do Convento, como facilmente se depreende de frases como esta: «levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas» (pág. 135); a Maria Madalena do Evangelho a guiar Jesus pelo túnel criado por Deus e que era a sua vida; a Joana d'Arc, que, comandando um exército cego (porque não a reconhecia), o levou à vitória sobre os inimigos.
O livro marca de tal forma o leitor que difícil será para este livrar-se da visão e do cheiro de tanta miséria e de tanta merda que no fundo caracterizam este mundo. Mundo que, para não a ver e para não a cheirar, constrói tapumes de cartão e espalha perfumes à volta.

Não seria aquela cegueira toda afinal um momentâneo vislumbre de visão?"

José Leon Machado, 07-04-1996

terça-feira, junho 07, 2005

Boa sorte para todos os estudantes!:)

Esta é uma época muito difícil para quem ainda é estudante... Mas pessoal, também não é o fim do mundo, ok?;)
Lembrem-se que passa num instante...que podem estudar toda a noite, porque de manhã podem dormir...que podem estudar todo o dia, que ainda têm uma noite pela frente....que podem juntar-se com os colegas para trocar dúvidas....compartilhar o stresse das vésperas de exame... as dúvidas... as angústias! Que depois de cada exame vem aquela sensação de um granndddeee alívio e o pensamento de que corra bem ou corra mal já é menos um com que se preocupar!:)
E ainda por cima está um tempo fantástico!!:) Podem ir estudar para uma esplanada, perto da praia ou num jardim!! Haverá alguma coisa melhor?;) Vá!! Eu bem sei que tudo isto SEM estudar sabe imensamente melhor, mas também não queiram ser tão exigentes!!
Aproveitem todos os momentos porque, acreditem, irão ter muitas saudades!!!
O nosso tempo de estudantes é o melhor da vida!:) Sabem aquela sensação de acordar e pensar "Vou às aulas ou não vou?". E termos a possibilidade de optar pelo "não vou"! :) Já não me lembro de como é... Mas não tenho dúvidas de que é MUITO BOM!;)
Pois é...a vida muda...as responsabilidades aumentam, assim como as preocupações! Por isso, aproveitem ao máximo enquanto podem!:)
Muita sorte, muita calma, confiem em vocês, respirem fundo e façam o vosso melhor!
Mil beijos e mil sorrisos!!:)

sexta-feira, junho 03, 2005

Memórias...

Tulving (1991) refere que: "Não existe uma "coisa" como a memória. O que existe é um número de diferentes sistemas e processos cérebro/condutuais/cognitivos que, através da interacção e cooperação entre eles, permitem ao seu possuidor beneficiar da experiência passada e assim favorecer a sobrevivência". Pode dizer-se que "a memória é a função psicológica pela qual recordamos factos passados, podendo assim viver no passado e no presente" (Dueñas, 1993, p. 102)....
"Podendo assim viver no passado e no presente"...
Esta é daquelas frases que quando lidas ou ouvidas, nos fazem sentir....nostalgicos...melancólicos....encurralados...!Mas que encerram grandes verdades e explicam no fundo aquilo que somos...não somos mais do que saudade e esperança...saudade do que já fomos, do que já fizemos, do que vivemos....e esperança de voltarmos a viver o que vivemos, de fazer o que já fizemos, de ser o que sempre fomos (será que isto "viver"?)...
Vivemos a vida a pensar no amanhã e no ontem...no quanto "fomos" felizes e no quanto "iremos" ser felizes!! (será isto "viver"?)
No meio de tudo, esquecemo-nos que "este momento" (o presente) é o momento mais importante, porque é o que nós temos "agora"! Não o que já vivemos, não o que prevemos viver...!
De que nos vale pensar no quanto iremos ser felizes no futuro, sem darmos a importância devida ao que temos, somos e fazemos no presente?
Mas nada é mais importante do que as nossas "memórias"...."as nossas histórias"....aqueles momentos que marcaram a nossa vida de uma forma tão intensa, que podem passar dias, meses ou até anos, mas nunca deixaremos de os ter presentes! É nelas que nos apoiamos para conseguirmos olhar para o futuro, para o podermos viver...são as nossas lições de vida!
Podemos não ter o dia de amanhã, mas é bom olhar para trás e poder sentir que "vivemos"....Podemos estar sós, isolados de tudo e de todos, mas teremos sempre esta capacidade de abrirmos o livro da nossa vida, na página que considerarmos mais apropriada, e rirmos ou chorarmos com a memória que nos surgir...
Sempre ouvi dizer que "águas passadas não movem moínhos", que não nos devemos manter presos nos doces laços ou nas amargas amarras que nos prendem ao passado, pois corremos o risco de não vivermos o presente ou o futuro com a importância que estes nos merecem...Mas passamos horas a dedilhar memórias, a partilhá-las com quem não as conhece, a juntar retalhos com quem as construímos...e assim somos felizes e sentimo-nos reconfortados com a lembrança dos momentos vividos, com maior ou menor intensidade, mas que contribuíram para a formação da pessoa que hoje somos...
Por isso a minha sincera homenagem às minhas "memórias"...obrigada por existirem! Sei que por vezes me fazem chorar, outras me fazem sorrir, outras há em que me fazem sentir uma imensa saudade por tudo o que foi e não volta a ser....
Mas acima de tudo, e o mais importante, é que nunca me deixam só....e sempre me compreendem!

quinta-feira, junho 02, 2005

Para ti Rita, com carinho....

A bruxita do cabelo longo e olhos doces faz hoje aninhos...!É verdade! A nossa caçulita linda, aquela que nos ouve, nos compreende, que nos questiona para nos fazer cair em nós, que nos relembra quem realmente somos...a Bruxita verdadeiramente Psicóloga!;) A dos "ais" e dos "uis"...a dos tombos de bicicleta...a dos iogurtes e das maçãs!:) A nossa "dezasseiszona"...a Dra. Rita da Clínica "Anima"... a que faz milagres com um lápis e um papel...a da letra linda...a do sorriso contagiante...a namorada do João...a irmã carinhosa...a nossa companheira...a nossa cúmplice das loucuras "saudáveis"....a nossa AMIGA!!!
Espero que tenhas um dia fantástico minha querida! Quem me dera poder dar-te um enorme abraço, mil bejinhos e dizer-te olhos nos olhos o quanto és importante para mim!
Obrigada pela tua amizade, pelo teu carinho, pelas tuas palavras nunca de censura e sempre de conforto!!
A minha prenda para ti, neste momento, segue abaixo....a letra da música que sei que adoras e que soletras como ninguém...BEIJOS ENORMES!!!

L'ultimo Bacio

Cerchi riparo fraterno conforto
tendi le braccia allo specchio
ti muovi a stento e con sguardo severo
biascichi un malinconico mugugno

Di quei violini suonati dal vento
l'ultimo bacio mia dolce bambina
brucia sul viso come gocce di limone
l'eroico coraggio di un feroce addio

ma sono lacrime mentre piove, piove
mentre piove, piove
mentre piove, piove

Magica quiete velata indulgenza
dopo l'ingrata tempesta
riprendi fiato e con intenso trasporto
celebri un mite ed insolito risveglio

Mille violini suonati dal vento
l'ultimo abbraccio mia amata bambina
nel tenue ricordo di una pioggia d'argento
il senso spietato di un non ritorno

Di quei violini suonati dal vento
l'ultimo bacio mia dolce bambina
brucia sul viso come gocce di limone
l'eroico coraggio di un feroce addio
ma sono lacrime mentre piove, piove
mentre piove, piove
mentre piove, piove

quarta-feira, junho 01, 2005

"Quem me dera ser criança, e perdoar..."

A propósito do Dia Mundia da Criança (hoje, 01 Junho)...

"Não é brincadeira também, esse belo título com o qual Eduardo Sá abre o seu livro sobre a infância: A vida não se aprende nos livros, editado pelo jornal Público na sua colecção Xis, menos brincadeira é ainda, o capítulo de abertura: “O importante é estar contigo”, no qual destaca os educadores da classe operária, os bebés. Ou, quando Melanie Klein, no seu texto de 1945, reproduzido em 1994 como volume II das suas Obras, página 37 e seguintes, analisa o respeito e admiração que uma criança tem pelo seu pai, quando o vê qual capitão a comandar o seu barco que mais não é, que a sua mãe. Melanie Klein, como se sabe, defendia o facto da criança ser perseguidora dos que lhe fazem mal, quer a si, quer às pessoas que ama: temperamento forte para si própria, mas vista como dura, punitiva, para o mundo, excepto se... perdoa. A criança sente capacidades omnipotentes, ao sentir que nada lhe é impossível, especialmente punir e castigar. Não é em vão, também, o texto Childhood and Society de Erick Erikson, refere que a criança tem autoconfiança, apesar da luta permanente que mantêm consigo, entre confiar e desconfiar, premiar e punir, sentimentos retirados pelos mais novos, das religiões que os seus adultos praticam. Erickson, na página 229 do referido livro de 63, explicita a mais valia que a criança aprende quando se debate entre iniciativas pessoais e a culpa dessa dinâmica, que, segundo o autor, diminui no sentido inverso do crescimento, ao se encaixarem, corpo e ideias, dentro da mesma cronologia, ao se juntarem ideias e anos vividos, que formam o futuro adulto. Eis que a criança sabe a quem perdoa e de quem foge, em pessoa ou em pensamento, como Alice Miller analisa nos seus textos, especialmente sobre Hitler, cuja puberdade passou a ser de ódio ao social, levando-o a matar milhares. Tal qual fez esse nativo Picunche, no Chile, de nome Augusto – qual Imperador, César, Poder Centralizado, Omnipotente... – conquistador e assassino dos seus amigos e inimigos, tal como a História e o Direito Internacional têm provado. Tal como Hitler – esse austríaco abandonado pelo pai judeu e criado sem recursos pela mãe – o referido Picunche, foi aceite na base de uma mal entendida caridade dos Padres dos Sagrados Corações – a escola da oligarquia chilena – sítio no qual aprendeu a odiar os mais poderosos que tudo tinham. Como Hitler, o Picunche não podia perdoar aos seus colegas as posses das quais ele carecia. Donde, no poder, matou, mentiu, enganou, seduziu, tentou conquistar o impossível, a adesão à sua pessoa. Essa adesão que teve o Presidente Allende. Esse carisma singular do Presidente, e a sua ideia de justiça distributiva, a quem o Picunche jurou lealdade mas que acabou por matar e, como a ele, a seus seguidores. Tantos, que a História não tem dedos para contar. Milhares, que o Holocausto até parece ficar diminuído quando comparado aos feitos referenciados. Tantas famílias ficaram separadas, espalhadas por esse mundo; mulheres que não puderam enterrar os seus mortos, por falta de cadáver, filhos para quem os desaparecidos são os seus heróis – péssima ideia no crescimento da criança. Essa criança cresce no ódio. Como muitos de nós. Como perdoar aos Senadores de há trinta anos, que planificaram a morte do Presidente Constitucional e de milhares? Que não sabiam, que não imaginavam? Então, seus pretensos sabidos, e a História, não conheciam? Que as mortes eram justificadas, porque seria apenas um mês de perseguições para se libertarem da aventura socialista. Que sabem eles do que é a justiça da igualdade, esse único direito que a Revolução Francesa consagrou e nunca foi capaz de cumprir, por viver à Hobsbawm, na Era do Capital? Esse direito nascido nos hoje EUA, na sua Constituição, usada para entrar no empobrecido Burundi, no mísero Afeganistão, para apagar as esperanças dos povos da América Latina, para escarafunchar, com dados muito bem organizados, no Iraque, ou proclamar a guerra ao terrorismo semeado por quem tem o poder económico e dos armamentos, da dita Lei Internacional, Tribunais de Direitos Humanos, que se funcionassem, teriam mais Milosevic do que há hoje. Porquê o prémio Nobel da Paz, ao organizador da chacina do Chile, esse Kissinger, cuja religião israelita manda matar, tal qual o seu povo faz com os Palestinianos? Como vou poder abraçar essa minha família, sentada na cadeira do fascismo? Como vamos poder voltar a um País ainda dividido pela imagem carismática, nítida, transparente, de um social-democrata que tencionou, como Babeuff em 1789, elevar o povo à dignidade da igualdade, luta que o levara à guilhotina em 1795, como Sua Excelência, foi levado às balas em 1973? E essas palavras que matam, quando, ainda hoje, neste aniversário, a maioria do Congresso não quer honrar o Presidente Constitucional morto pela traição das Forças Armadas, ao colocar uma placa no lugar da sua morte? Quem me dera ser criança, para saber debater-me entre esta vida em território alheio e a minha natural inclinação de ser, outra vez, chileno? Quais os meus Direitos, quais as prerrogativas de todos nós, ao vivermos em permanente Êxodo? Quem me dera ser criança, para punir os arrebatadores de ilusões e de emotividades, os separadores de famílias, os que causaram esta nossa tristeza depressiva de não se ser entendido em sítio nenhum, quer pela pronúncia, quer pelas ideias. Porque, ao regressar de uma visita de trabalho de campo no Chile Picunche, na minha cabeça aparecia a ideia de um livro: Chileno exilado no Chile. Haja uma divindade que permita ao desleal Picunche e aos seus apoiantes, viver muitos anos, até sentir o peso da solidão e da vida em culturas que não são as suas! Haja uma divindade que me permita apedrejar com ideias, até convencer os fascistas, do mal feito à Nação. Como em Portugal, um cravo por cima do País, para que esta curta vida seja sã e serena. Senhores Pais, aqui ficam os factos teóricos e históricos para ensinar às crianças que o 11 de Setembro não é as Torres Gémeas, mas sim o dia da memória de um povo arrasado."
Artigo de Raúl Iturra