quarta-feira, junho 08, 2005

A propósito de..."Um Ensaio sobre a Cegueira" de José Saramago

Tem considerado o Ensaio sobre a Cegueira como um livro duro. Porquê?
José Saramago- Trata-se de uma situação em que toda a gente cega e, a partir daí, ninguém sabe conviver, onde ir ou o que fazer, porque o mundo está organizado para quem vê. Então, sobem ao de cima os instintos maus, a necessidade de sobreviver contra os outros. Até agora, quem leu o livro está de acordo: é um livro duro.

O que o levou a escrever um livro assim?
J.S.- Não é fácil dizer porque se escreve um livro, embora este tenha uma resposta simples: o mundo (parece-me que estamos de acordo) não está bem, é terrível. Vamo-nos habituando às coisas más, dolorosas, alucinantes. E perdemos a sensibilidade, a capacidade de reagir às coisas más, de combatê-las. Este livro é, de uma maneira transposta, a metáfora do medo real. Tinha que ser duro, porque o mundo é duro e violento. Foi a consciência desta sociedade que é a nossa que me levou a escrever este livro.

É um grito de alerta?
J.S.- Não é um grito de alerta, porque os outros não dão por eles. É mais como quem cumpre um dever, uma obrigação. Se penso que as coisas estão assim, tenho que dizê-lo... Como se dissesse: como vamos? vamos mal. Não posso mudar o mundo, por isso a minha contribuição é escrever um livro onde o denuncie. E o leitor irá decidir até que ponto isso lhe interessa."

ANDRADE, Elsa, "Ensaio sobre a Cegueira ou o sofrimento de Saramago" in jornal O Bancário, s/l, 6 de Novembro 1995, pág.10.

"300 e tal páginas de aflição...
Porquê tanto sofrimento? Será que adivinha o escritor tão más perspectiva?
As esperanças que podemos pôr no futuro dependem da nossa capacidade de mudar o presente. Não haverá amanhãs que cantem se hoje são tantos os motivos que temos para chorar e tão poucos os que restam para sorrir. Se, como dizia Leibnitz, vivemos em cada momento no melhor dos mundos possíveis, então é o mundo que não tem remédio."

"O Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago é de arrasar e, antes disso, de abalar as nossas certezas. Depois da leitura do Evangelho Segundo Jesus Cristo, nenhum outro livro de Saramago terá incomodado tanto o leitor.
Neste romance temos tudo o que caracteriza a sociedade actual (mas sempre foi assim...): o sectarismo (isolamento dos cegos num manicómio), a violência gratuita (os disparos dos soldados sobre os cegos), o cinismo dos políticos (medidas tomadas para tentar debelar a epidemia de cegueira), o egoísmo (cada cego por si), os grupos armados que não são mais do que a caricatura dos bandos criminosos, a porcaria que inundava a cidade, etc., etc.
Podem identificar-se algumas referências mais ou menos históricas, mais ou menos literárias: os campos de concentração nazis, A Peste de Albert Camus, a cidade moderna perante uma catástrofe, as estranhas figuras de Bosh e de Dürer, a visão bíblica dos cegos que conduzem outros cegos. Mas algo que me parece essencial: a cidade de Tróia sendo destruída pelos exércitos gregos. Eneias, diante de todo o desastre, carrega às costas seu pai cego. A mulher do médico não será porventura um Eneias, único guerreiro que, perante a catástrofe, não perdeu o sangue frio? E temos o velho da venda preta. Não é concerteza Anquises. Mas não haverá porventura nele algo de Homero? Quem é que conta aos cegos do manicómio aquilo que se passou lá fora depois de terem sido internados? Quem é que lhes relata, ouvidas as notícias na rádio, o que se vai passando?
Este cego da venda preta tem algo de narrador e algo de épico. Ele próprio aparece como cronista em potência das venturas e desventuras do manicómio (cfr. págs. 159-161). E depois, claro, facilmente se poderá identificar com o alterego do autor. A rapariga dos óculos é a ele que elege (cfr. págs. 170 e p. 291), «ficando por esta via demonstrado, mais uma vez, que as aparências são enganadoras, e que não é pelo aspecto da cara e pela presteza do corpo que se conhece a força do coração».
É interessante o escritor cego que aparece em casa do primeiro cego e mais interessante ainda a técnica que ele inventou para poder escrever. Disto se tira a lição: não há desculpa para ficar calado. E a propósito me vem a história de Brás Garcia Mascarenhas, soldado e poeta do tempo da Restauração que, sendo acusado de traição contra o rei, foi preso. Tiraram-lhe tudo, excepto uma bíblia. Rasgando as letras uma a uma, compôs um poema que colou com farinha e água numa das páginas rasgadas. O poema conseguiu, por linhas travessas, chegar ao rei, que, vendo a injustiça, ordenou a sua libertação.
A mulher do médico encarna muitas heroínas: a Blimunda do Memorial do Convento, como facilmente se depreende de frases como esta: «levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas» (pág. 135); a Maria Madalena do Evangelho a guiar Jesus pelo túnel criado por Deus e que era a sua vida; a Joana d'Arc, que, comandando um exército cego (porque não a reconhecia), o levou à vitória sobre os inimigos.
O livro marca de tal forma o leitor que difícil será para este livrar-se da visão e do cheiro de tanta miséria e de tanta merda que no fundo caracterizam este mundo. Mundo que, para não a ver e para não a cheirar, constrói tapumes de cartão e espalha perfumes à volta.

Não seria aquela cegueira toda afinal um momentâneo vislumbre de visão?"

José Leon Machado, 07-04-1996