"Não acredito que se possa deixar de relacionar a memória que temos de um espaço com as coisas que lá vivemos. Coimbra é a mais bonita de todas as cidades que já conheci na vida. Em Coimbra, nasceu o meu filho. Na Primavera, a luz é a claridade. A luz limpa que desenha todos os contornos de uma nitidez bela, como se fosse a luz que trouxesse beleza às ruas, aos edifícios, aos rostos. Lembro-me sempre de Coimbra numa eterna Primavera: o ruído de centenas de pássaros invisíveis nas copas das árvores da Praça da República. Lembro-me de estacionar o carro no Terreiro da Erva, avançar pela Rua da Sofia – que, nesta cidade de doutores, não significa o nome próprio, mas a palavra grega «conhecimento» –, lembro-me de atravessar a Rua Ferreira Borges, com o meu filho ao colo, ao lado de uma pequena multidão que observava montras ou que passeava com o desprendimento e a satisfação de passear. Lembro-me de procurar um lugar vago numa das esplanadas do Largo da Portagem. De um lado, o rio Mondego; do outro, as pessoas. Duas correntes serenas, iluminadas por essa claridade da Primavera. Depois, o tempo a ser, também ele, uma corrente serena. O tempo também iluminado por essa claridade que parecia anunciar a ressurreição do mundo.A latada, os rasganços, a queima das fitas. A cidade vive pelos horários da universidade. Os estudantes são o sorriso com que a cidade sorri. Passam vestidos de negro ou sentam-se nos cafés que têm letreiros a dizer: «Proibido estudar». O seu sorriso é jovem há muitos séculos: os que chumbam consecutivamente para não abandonar a república onde vivem, os que vão a casa de comboio no fim de semana, os que se sentavam a meu lado nas esplanadas da Praça da Portagem quando era Primavera.Em Coimbra, os lugares são tão bonitos como os seus nomes – Penedo da Saudade, Quinta das Lágrimas –, em todos eles se respira a serenidade longa de um tempo que demora e que não exaspera. A cidade é também o seu tempo. Subir ao convento de Santa Clara e fazer o nosso olhar atravessar o rio, toda a distância. Caminhar no Jardim da Sereia, nas ruas da baixa. Sentar-se numa esplanada.O Diário de Coimbra dá as novidades da Académica. Será que vai voltar à primeira divisão? Em todos os cafés há um homem a ler o jornal. É Primavera, pois lembro-me sempre de Coimbra numa eterna Primavera. Também há crianças a correr. O meu filho quer correr, mas é demasiado pequeno e fica no meu colo, a beber colheres pequenas cheias de leite morno, muito atento aos outros meninos. Faço-lhe uma brincadeira qualquer e ele sorri, olha para mim. É Primavera. Há algo de felicidade aqui. À noite, há um bailado no Teatro Gil Vicente, as trupes de estudantes andam silenciosas pelas ruas, os namorados estacionam os carros no convento de Santa Clara e beijam-se diante das luzes da cidade: a torre da universidade lá em cima, os fios de luzes até à baixa estendem-se no rio. O dia nascerá atrás da cidade. A claridade atravessará vários tons até chegar o fim de tarde e eu estacionar o carro no Terreiro da Erva e chegar ao Largo da Portagem com o meu filho ao colo e nos sentarmos numa esplanada a sermos felizes.Hoje, o meu filho já anda, já corre. Ao domingo, vamos à feira de Santo António dos Olivais ou vamos à feira da Rainha Santa. O meu filho foge-me da mão e começa a correr. Eu páro-me a vê-lo. O seu corpo pequeno ensina-me a ternura ou qualquer outra coisa grande. De certeza que é Primavera nesta cidade. O meu filho corre na claridade. Penso que um dia havemos de jogar à bola no Jardim da Sereia. O meu filho não sabe o que penso, mas olha-me e sorri, chama-me «papá». Sorrio também.Às vezes, sentamo-nos na esplanada do café Santa Cruz. O meu filho conta-me das brincadeiras do infantário, conta-me dos colegas. Conversamos. As pessoas passam, como se passasse a cidade, como se passasse o tempo. Mas Coimbra está parada na claridade dos olhos do meu filho, na claridade dos meus olhos. Ainda assim, nesse tempo parado, chega a hora da despedida. Dou um abraço ao meu filho, sinto o seu corpo pequeno dentro dos meus braços.No carro, Coimbra fica para trás. Cada vez mais longe. É noite. Coimbra é a cidade mais bonita de todas as que já conheci na vida. Em Coimbra nasceu o meu filho."
José Luís Peixoto