A propósito da Inteligência Emocional
"Por razões de moda, pelo seu valor apelativo, mas também pela sua valia heurística, a inteligência emocional (IE) granjeou atenções de múltiplos sectores da vida social, política, económica e empresarial.
Enunciando de um modo simples, os indivíduos emocionalmente inteligentes são os que usam a razão para compreender as emoções (as próprias e as dos outros) e lidar com elas, e que recorrem às emoções para interpretar a envolvente e tomar decisões mais racionais. A IE representa, pois, a capacidade para conciliar emoções e razão: usar as emoções para facilitar a razão, e raciocinar inteligentemente acerca das emoções. Refere-se ao conjunto de capacidades que fazem com que a pessoa actue de uma forma adulta e auto-controlada, evitando incorrer em comportamentos regressivos e emocionalmente imaturos.
Inclui características como:
(a) a capacidade de avaliação correcta dos estados de espírito próprios e alheios; (b) a regulação adaptativa das emoções próprias e alheias;
(c) o uso inteligente das emoções nas diferentes actividades da organização (e.g. liderança, negociação, trabalho em equipa, resolução de problemas).
Um modo expedito de compreender a IE consiste em prestar atenção às competências que lhe subjazem. Uma classificação simples distingue quatro facetas:
(a) empatia, capacidade de avaliar as emoções próprias e dos outros, e de exprimir rigorosamente as próprias;
(b) uso das emoções para melhorar os processos cognitivos e a tomada de decisão (e.g., recorrer a estados de espírito positivos para trabalhos de criatividade);
(c) conhecimento acerca das causas e das consequências das emoções;
(d) capacidade para gerir as emoções próprias e de outros (e.g., preservação de estados de espírito positivos e reparação dos negativos).
Frise-se que estes quatro aspectos estão intimamente relacionados. Por exemplo, a tomada de consciência das emoções é necessária para que o indivíduo possa geri-las; a empatia representa um elemento facilitador da gestão das emoções dos outros.
A teoria da IE assume que as pessoas podem, de uma forma consciente, lidar com as suas emoções e as das outras pessoas, e geri-las de um modo funcional, quer em termos pessoais quer organizacionais. Entre outros indicações, os dados também sugerem que as pessoas com níveis mais elevados de IE denotam níveis superiores de desempenho e sucesso profissional.
Líderes com elevados níveis de IE criam climas onde imperam a partilha, a confiança, níveis saudáveis de tomada de risco, aprendizagem proveitosa. Ao contrário, baixos níveis de IE produzem medo, ansiedade, inibição de arriscar, resistência à partilha de conhecimentos e experiência. Quando um líder está sob estados de espírito positivos, as pessoas em seu redor tendem a encarar a envolvente de um modo também positivo – assim se tornando mais optimistas acerca do alcance dos objectivos, mais criativas, mais eficientes na tomada de decisão, mais predispostas para ajudar os restantes membros organizacionais. Ocorre, por conseguinte, uma espécie de liderança galvanizante ou ressonante: os estados de espírito dos líderes repercutem-se nos seus colaboradores e no desempenho do grupo ou organização.
AIE transmite-se ao longo de uma organização “tal como a electricidade através dos fios eléctricos”. Uma indagação de grande relevância nesta matéria é a de se saber por que tais efeitos ocorrem. O contágio emocional parece servir como potencial fonte explicativa: as pessoas têm a tendência inconsciente para convergir emocionalmente quando interagem, isto é, para mimetizarem e sincronizarem expressões faciais, vocalizações, posturas e movimentos de outras pessoas.
Sucede que os resultados de vários estudos sugerem uma explicação alternativa potente: existe uma “regulação límbica interpessoal”, de tal modo que “uma pessoa transmite sinais que podem alterar os níveis hormonais, as funções cardiovasculares, os ritmos de sono e mesmo as funções imunitárias no corpo de outra pessoa. É por isso que cada membro de um casal é capaz de estimular o surgimento de oxitocina nos cérebro do parceiro, assim criando um sentimento prazenteiro e afectuoso”.
Em síntese: pese embora a escassez de pesquisas empíricas relacionando IE e eficácia de liderança, os dados disponíveis permitem supor que “no mínimo, as emoções e a inteligência emocional merecem ser consideradas no domínio da liderança” . E há razões para pensar que a liderança transformacional, visionária e baseada em valores deve uma parcela da sua existência e efeitos às “qualidades” emocionais dos líderes.
De tudo o que pode ser dito relativamente a este assunto, poderemos considerar 5 linhas de síntese:
Primeira: contrariamente ao paradigma tradicional, as emoções podem tornar o pensamento mais inteligente, e a inteligência pode permitir pensar e usar de modo mais apurado as emoções. É esta possibilidade cruzada que define a IE.
Segunda: a IE parece representar a pedra angular para melhores desempenhos - incluindo a eficácia dos líderes.
Terceira: a relevância da IE na eficácia dos líderes aumenta à medida que se sobe na hierarquia.
Quarta: é importante que um líder tenha competências emocionais diversificadas, combinando-as em diferentes configurações consoante as situações que se lhe deparam. No caso de não deter determinadas competências, deve rodear-se das pessoas que as possuam.
Quinta: apesar de haver uma componente genética na IE, os líderes também podem adquirir certas competências emocionais através da experiência e da formação. Por exemplo, podem aprender a ser mais proficientes na comunicação interpessoal - incluindo a competência em “saber ouvir”.
Baseado no artido "Liderança emocional electrizante" de Miguel Pina e Cunha (Faculdade de Economia, UNL) e Arménio Rego (Universidade de Aveiro)

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home